Carol Machado*
Quando Isabela me procurou, achei estranha sua insatisfação...era moça, bela, corpo esbelto das horas a fio de circuitos de ginástica entre as tardes vazias em que, ora ficava rindo bobamente na internet, ora repetindo séries de melhor de três em frente ao espelho. Me confessou que lhe faltavam ideias, mas que gostava de escrever textos de ajuda.
Era bonita, o sorriso que descartava a ideia de uma dúzia de problemas bucais...Lia com avidez alguns power points de auto-ajuda, e achava que um bom dia na segunda-feira melhorava o resto de semana, e um sorriso apagava toda dor, embora ela mesma soubesse que a farsa do sorriso, da alegria contagiante e de todo resto, era uma fantasia de menina perdida.
Afobadamente me falava de uns casos que arranjara em redes sociais, e queria saber minha opinião...
Eu sorri e disse qualquer coisa como 'o virtual é virtual mas há sempre uma possibilidade real.'
Estranho como aquela moça era tão insegura, apesar da malha colante e o batom vermelho...Procurava nela traços de baixa auto-estima, insatisfação conjugal e algum eventual trauma de infância (eu divagando) mas nada era senão ânsia de viver uma intensidade desmedida, uma necessidade de descarregar aquela pulsão toda em algum amor descartável que fosse, qualquer coisa, que a fizesse esquecer da solidão que não diluia no blush rosado e nas frases de efeito de autoria de um apóstolo da motivação.
Eu e meu pacote de doritos escutávamos silenciosamente, e falei que sim (mais para acalmá-la) que poderia rolar um 'tipo de amor' via cabos de rede, mas era só uma hipótese: eu mesma já vivenciara isso.
Ela quis saber como que foi, com quem foi, mas fui evasiva, já que envolveria muita gente e não era o caso, sabia o quanto essas histórias eram como telefone sem-fio, enfim...E ademais foi importante pra mim, e eu pra ele, acredito.
Percebi que ela se tornava ansiosa à medida que de tanta insistência - um inquérito praticamente - revelei alguns detalhes, sem nomes, sem dados, misturando fatos reais e imaginários da história toda....Sua boca empalideceu e quis logo comparar sua história, e veio com uma conversa mole de 'unir forças contra um inimigo invisível'... Ri internamente pensando numa cruzada de 'todas contra quem' e dela achar que eu iria cair numa dessas... Mas tive no fundo, pena da arrogância ingênua dela de achar que num mundo como esse, alguém é posse de alguém, como eu achei um dia...
O sorriso desapareceu dessa vez de meus lábios, pois vi que não difarçava a fúria nos seus, que tremiam...percebi que sem querer toquei em algum ponto que a atingia em cheio, uma estranha identificação a tomou... Eu sabia que falávamos da mesma pessoa, ela estava em dúvidas, pode estar até hoje, ou não...
[Havia percebido nela em algumas poucas conversas, seu estado latente: era a criança que queria os brinquedos, por mais velhos que fossem, que a outra coleguinha pegou para brincar, fora os pedidos extremados de atenção traduzidos em palavras dessa ordem. Ela precisava daquele tipo de coisa que o outro vivenciou, dos amigos, das histórias, até dos amores; uma desapropriação, não uma conquista.]
Creio que a dúvida é sempre mais cruel que qualquer outro sentimento, em alguns momentos, pois a certeza vai fazer o sujeito chorar uns bons dias a fio debaixo do edredom, mas depois passa, lava na pia que sai.
Nunca mais vi Isabela desde então, mas soube dia desses que ela busca deseperadamente vencer suas inseguranças, seus medos, sozinha naquela casa grande, cheia de calopsitas... Podia ter saciado sua curiosidade e arrancado algumas dúvidas, mas adiantaria?
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Se a certeza a faria mais feliz, isso eu não sei, mas aí é uma outra dúvida...
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Carol é escritora iniciante, blogueira de moda e nas horas vagas estuda filosofia e ouve músicas antigas.